quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ternos, togas e cegueiras

Reproduzindo os devaneios formalistas, já típicos do nosso tão mal-tratado Direito, o Conselho Nacional de Justiça determinou que os advogados do Rio de Janeiro deveriam respeitar o código de vestimenta imposto pelos tribunais e se apresentar sempre às cortes trajando terno e gravata. A Ordem do Advogados do Brasil, no Rio, havia permitido aos advogados que se apresentassem em juízo com roupas um pouco mais condizentes com o clima local no verão. Contudo, das suas salas climatizadas em Brasília, o CNJ deu aos tribunais a liberdade de impedir a presença de advogados fora do esquema terno-e-gravata.

Os conselheiros, supostamente, assim decidiram para proteger o decoro e as normas de conduta dentro dos tribunais. Questiono onde está essa preocupação quando as imoralidades cotidianas ocorrem entre as paredes da Justiça. Onde está o decoro quando direitos individuais são negociados como mercadoria? Que moral é essa que se dá como agredida pela ausência de nossas coleiras de seda, mas não enrubesce diante de sentenças marcadas pelo ódio, pelo preconceito e pela ignorância?

Não há mais que se falar em boa conduta dentro dos nossos tribunais quando o único respeito reservado a nós é o medo da autoritária figura do juiz, quando a legitimidade de nossas decisões está menos na consciência das pessoas que nos braços das forças policiais.

Senhores conselheiros, o que agride a moral de nossa Justiça não são esses advogados que afrouxam suas gravatas diante de míseros 40 graus. O que agride nossa moral são as formalidades opressoras, de togas e ternos, a mentalidade elitista, enfim, os arroubos megalomaníacos e esquizofrênicos que expulsam das salas de audiências advogados sem ternos de seda ou agricultores de chinelos. O que mancha a justiça é sua constante cegueira ao mundo real.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Justiça Romana, Igreja Romana, problema brasileiro

Palavras são vazias até que lhes damos significado. Construímos nossos conceitos quanto ligamos certas palavras a certas ideias. Isso pode parecer pouco importante de se ter em mente, mas esquecer que uma palavra tem um significado determinado historica e socialmente, pode abrir caminho pra alguns mal-entendidos ou talvez sustentar argumentações até maliciosas. Usar conceitos em desalinho com a realidade é algo comum e bem prejudicial.

Quinta-feira passada, dia 12 de maio, Eduardo Peters, coordenador da Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília, foi convidado a expressar as razões da Igreja Católica contra a decisão do STF de reconhecer direitos iguais para diferentes expressões de afetividade. Um dos suportes de sua argumentação era a definição de justiça do jurista romano Ulpiano, que dentre outras coisas definiu o justo como "dar a cada um o que é seu" (suum cuique tribuere). Dai que seria injusto igualar a União homoafetiva e o casamento heterossexual, já que o "seu" - convenientemente esquecendo que esse "seu" é socialmente determinado, e não natural - de cada um seria diverso.

Já se falou muito sobre as falhas dessa forma de justiça - aos oprimidos opressão, aos excluídos a exclusão, a cada um o que é seu - mas é preciso entender que não é o conceito em si que está errado. Ele simplesmente existe pra uma outra realidade, com outras formas de agir e pensar, com papéis sociais diferente e normas sociais diferentes. Então, senhor Eduardo, o senhor não falou nada errado. Só não vale achar que o justo de 1.800 anos atrás é, automaticamente, o justo de hoje.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A revolução não será no sofá

Não tem jeito, não consigo acreditar em "twittaços". Na verdade, eu acho difícil, e até um pouco ingênuo, ter fé no poder emancipador das mídias socias que algumas pessoas têm. Dá a impressão de que se no passado se falava em Guevara, Martín e Bolívar, os libertadores do novo século se chamam Twitter e Facebook.

Exageros à parte, não dá pra negar a importância das redes sociais nas revoluções, na corrosão do autoritarismo, mas não dá pra esquecer também que elas são ferramentas de mobilização. A informação pura não liberta os povos. A verdade, por si só, não vos libertará. Se, por exemplo, o facebook teve grande importância nas convulsões recentes em países muçulmanos, o que forjou a revolução, de verdade, foi o povo na rua. Apesar da importância do ciberespaço, o lugar das revoluções ainda é a rua. Facebook no Egito, blogs no Irã, twitter na Líbia - a palavra livre é fundamental para a democracia, mas ela ganha corpo é na luta física, real, nos choques contra o Estado autoritário.

Por isso não acredito em twittaços. Se me permito recuar em sua defesa é que eles cumprem parte do papel de uma manifestação real: publicizar a insatisfação. Eles ao menos servem pra deixar claro pros governantes que as pessoas não estão felizes com a situação. E pra que as pessoas saibam que não estão sozinhas nas suas demandas. É um passo além do tradicional resmungar em volta das garrafas de café e bebedouros de escritório. Mas protestar é algo mais que isso. Quando o povo vai às ruas, não é só uma demonstração de reprovação, mas também um aviso para aqueles que governam, lembrando-os que eles governam como representantes do povo, esse sim a verdadeira fonte do poder público.

Explodir em hashtags furiosas pelo twitter é sim um bom meio de espalhar o debate, mobilizar as pessoas, mas sem que haja uma disposição de fazer valer a soberania popular, de nada vão adiantar as ferramentas tecnológicas disponíveis. Que dirá o Sr. José Sarney, orgulhoso presidente do Senado.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Viver é uma necessidade

Não estava pensando em fazer promessas de ano-novo. Não acredito nelas porque tenho a impressão de que as pessoas as fazem só pra esquecê-las antes da páscoa. E também porque no fundo eu sei que não preciso prometer. O que eu tenho que fazer e mudar está bem claro, e quase um dever. Sempre me orgulhei de ser consciente dos meus erros e falhas, mas ano passado percebi que talvez eu não esteja assim tão a par da minha fraqueza.

Então, se for preciso escolher uma resolução de ano-novo, eu escolho esta: serei mais humilde, mais sincero com minhas limitações e farei o possível para ser o mais próximo que eu puder do que acredito ser uma pessoa "boa". Vou mesmo correr atrás e tentar aderir a uma vida livre de remorsos e segundas intenções.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O ventilador


Na cabeça, subitamente leve, as lembranças da viagem flutuaram como nuvens, encobrindo as estrelas que voaram em meio à visão escurecida. O barulho seco do punho desconhecido amaciando-lhe a carne da face ecoou por entre as mesas do bar repleto de atônitos e silenciosos espectadores. A despeito da inusitada quietude, reinante no fim da luta, ao contar a história anos depois lembraria claramente do badalar troante de um enorme sino de catedral em sua mente, ouvido bastante distintamente ao toque brutal do atacante.

Seus pés vacilaram dois passos. Impulsionado por um soco direto no estômago, caiu sobre a mesa às suas costas, o ar roubado instantaneamente dos pulmões. Com a mesma avidez com a qual procurara renovar o fôlego perdido, tateara a mesa de bilhar e, com as mão trêmulas, afinal alcançou um taco ali esquecido. Pouco depois estava acabada a luta. Vibrara a arma em mãos, cortando o ar com um zunido, fazendo-a explodir em pedaços nas têmporas do outro.

No teto, a luminária atingida pela fúria dos homens balançava alternando luz e penumbra pelas ruínas espalhadas do bar. Uma planície de cacos de vidro que pouco lembravam os copos e garrafas que há instantes jaziam sobre as mesas - agora também destruídas - cobria o piso. Ébrios lutadores gemiam pelo chão nocauteados em meio a cartas de baralho esvoaçantes. Então, isso é vida? - pensava, ainda sentindo o sangue ferver pelo êxtase da briga. Os braços doloridos, os dentes amolecidos e o olho que latejava lembravam-lhe do que deixara para trás. Lembravam-lhe da vida fácil na casa dos pais, da obrigação de ser gentil e simpático, da alegria pueril e ingênua dos amigos e de como aquilo tudo parecia tão distante no tempo e no espaço.

Deixou-se cair pesadamente sobre uma das poucas cadeiras próximas e incólumes. Pares de olhos assombrados o miravam. Pegou do chão uma garrafa que resistira aos embates e sorveu o pouco conteúdo que lhe restava. O alcóol pareceu queimar no encontro com o cortes recém-ganhos nos lábios e gengivas. Cuspiu de lado o whisky barato e, suspirando, voltou os olhos para o teto amarelado pela fumaça de cigarros. As lâminas do ventilador se sucediam em um giro entediado e indiferente. Riu-se da ironia de recordar os momentos mais doces quanto mais fortes eram as pancadas que recebia. Mais engraçado era a lembrança do amor perdido, que lhe vinha mais clara com o gosto ferroso que lhe invadia a boca ensanguentada.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Lotérica

Lixar as unhas parecia o passatempo predileto dela. Quase um hobbie, treinando um pouco mais seria quase uma atleta profissional. Não que fosse preguiçosa, não, a falta de trabalho é que era muita no meio daquelas dezenas de repartições públicas. Tirando o horário de almoço, quando a lotérica se enchia de esperançosos apostadores, Carminha passava boa parte de seu dia esperando pelo fim dele. Mas a espera até que lhe fazia bem. Ou parecia fazer. A pele meio morena - de preto lavado, minha avó dizia - e o cabelo liso e escuro, um bocado mal-tratados, não negavam a baixa classe social da moça, mas eram definitivamente apaixonantes.

Bonitinha que só ela, tinha um sorrisinho encantador, quase hipnotizante na sua mais absoluta e indiferente formalidade. Ninguém resistia àquele sorriso protocolar. E as covinhas que lhe surgiam nas bochechas, então? Não havia um só funcionário do, hoje já finado, Banco de Previdência Suplementar do Estado do Rio de Janeiro que não lhe mirasse as famigeradas covinhas quando a ridente Carminha lhes recebia o possível (mas improvável) bilhete premiado. As unhas (vermelho-sangue, e muito bem lixadas, fique claro) batiam céleres e compridas nas teclas do velho Compaq que registrava os jogos. "Boa sorte", tintilava a doce e distante Carminha, estampando na cara um sorriso mais falso que o ouro nas bijouterias que discretamente lhe brilhavam no pescoço e orelhas. Mas, que importava? Alegrando de estagiários à superintendentes, aquele sorriso era a benção mais igualitária ali distribuída.

Se bem que ela sorriu de verdade, e sorriu com gosto, só no dia em que o velho repentista, que andava por lá todo dia entre o couro do chapéu e das sandálias, cantou em verso o que todo mundo pensava em prosa:

Como me convinham,
as covinhas da Carminha!

domingo, 1 de agosto de 2010

Enquanto isso, no lustre do castelo...


Cada pergunta só leva a mais perguntas. Eu quis criar uma medida para a razão prática. Quis entender a ontologia do capitalismo e a metafísica dos sentimentos. Eu inquiri sobre a catarse e a melancolia e como o juiz questiona uma testemunha, interroguei a natureza, forçando-a a me entregar seus segredos mais escondidos.

Do amor à tragédia, de tudo eu perguntei. Mas as respostas só iluminavam o espaço em branco da minha mente, revelando novos vazios. E assim, após tristeza e dúvida e frustração, salvei-me de minha angústia. A Odisséia pelo conhecimento é um processo que não há de parar. E mais que angústia, sinto alegria. Claro, a outra opção é o tédio. Prefiro o ímpeto de um Ulisses inquieto.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Minha cidade não morreu


Ontem Brasília ganhou um cortejo fúnebre, pra seguir a sua suposta morte. Achei estranho, porque até onde sei, minha cidade não morreu. Provavelmente é algum engano, erro médico, sei lá. Vai ver é catalepsia. Só sei que minha cidade tá bem viva, na certa quem a acreditou falecida não entende muito bem o que faz Brasília o lugar que é.

Aliás, devo dizer que me incomoda um pouquinho ver gente de fora criticar tão acidamente o DF. Dá um certo desconforto ouvir tanta reclamação sobre a política, vinda de gente que nem sequer vota aqui. Tudo bem, sei que estou errado, mas fica aí meu comentário ranzinza.

Mas voltando ao assunto, quem diz que enterrou Brasília deve conhecer a cidade através do Jornal Nacional. É, nossos políticos de fato andam merecendo que se instale uma guilhotina na praça dos três poderes, e nossas instituições realmente parecem à beira do colapso, mas Brasília é muito mais que políticos e instituições. Sim, pode parecer surpresa, mas acredite.

Ela foi mal-tratada, desprezada e violentada, mas continua aí, sendo um sonho, um eterno projeto (por que não dizer uma esperança?) como sempre foi. E é por isso que enquanto alguns choraram sua morte, eu festejei seu aniversário. Porque eu ainda acredito nessa cidade; que é a mais linda do mundo porque é minha casa.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Histórias a gente inventa e escuta

A cultura aparece em todas as formas com que nos expressamos. Nossos costumes, nossos hábitos, valores e convicções são parte da cultura, alimentados por ela e recriando-a sempre. Quando se lê um livro, estamos acrescentando algo ao nosso "acervo" de referências. Ou quando crescemos vendo TV absorvemos os juízos que nos foram ensinados. Isso tudo é um processo, em que os indivíduos criam, muitas vezes de maneira inconsciente, uma identidade construída com esses elementos reproduzidos na sociedade.

Esses significados que fluem dentro da sociedade são manifestados em praticamente qualquer formato. Se antes as manifestações culturais já eram amplas e abrangiam festas populares, literatura, dança, música, pintura, escultura... hoje, a revolução dos meios de comunicação fez explodir essas possibilidades. Ou talvez isso seja muito mais resultado de uma mudança na mentalidade. Se um livro pode trazer uma grande história e ser relevante no pensamento popular, porque uma história em quadrinhos não pode ser também? Muitas pessoas ainda têm preconceitos quanto a isso, mas nada impede que uma HQ, ou um videogame sejam tão significativos quanto um livro de Machado de Assis.

Apesar de na origem terem sido voltados para crianças, há quadrinhos ou jogos com grande complexidade e riqueza. Posso citar a Retalhos, de extrema sensibilidade, ou Fall Out 3, que não deixa nada a dever ao roteiro de um grande filme. Então por que não considerá-los manifestações culturais como são a literatura e o cinema?

Talvez porque um jogo não possa ser criado pelo povo, ou porque essas são plataformas bastante elitizadas. Contudo, a cultura como eu disse pode ser tanto contar quanto escutar histórias. E o cinema está quase tão longe da produção popular quanto o desenvolvimento de jogos. Quanto à elitização, vale lembrar que tem pouquíssimo tempo que a leitura, por exemplo, é algo relativamente (e bota relativo aí) democratizado.

Esses argumentos de modo algum retiram o caráter desses que eu defendo serem bens culturais, muito pelo contrário, apenas demonstram a necessidade de alternativas para garantir o acesso a eles.

Pode ser torrent? É uma discussão boa pra outro dia.

terça-feira, 2 de março de 2010

Esquema Superpirata!


Se você foi ao cinema nos últimos tempos, talvez tenha visto uma propaganda antipirataria ridícula, em que um pai de família chega em casa se vangloriando dos filmes piratas que comprou, e logo depois seu filho lhe responde que também se deu bem. Segundo ele, pegou um brinquedo do amigo - roubou, enfim. Esquema superpirata, pra orgulhar o paizão.

Apesar de engraçada, a propaganda devia indignar. Não é muito responsável comparar quem compra um CD pirata e quem comete um furto, por exemplo. São coisas totalmente diferentes. Simplesmente comprar um artigo pirateado não te torna um criminoso. Mesmo que a APCM morra de vontade que você acredite nisso.

Semestre passado escrevi um artigo pequeno sobre download de músicas, defendendo que o compartilhamento de arquivos não poderia ser considerado crime. Nesse artigo eu defendia que o compartilhamento é bem diferente da pirataria e condenava com certo rigor a última. Pois bem, devo confessar que não obstante eu ser contra a pirataria, já (em momento remoto da minha vida...) comprei jogos de videogame pirateados. Contraditório, sim. Mas tenho meus analgésicos morais pra suportar a culpa.

Comprar um DVD pirata, não tem motivo. De certa forma é até uma coisa burra. Se você quer só ver o filme, baixe. É rápido e gratuito. Conhece o Torrent? Isso eu acredito sinceramente que é mais que legal, é justo. Mas se você realmente gosta do filme, quer tê-lo na sua estante, compre o original, ora bolas! Um DVD original quando caro é 30, 40 reais. E não é dificil achar ótimos filmes por 10, 12 reais nas lojas. Mas e os jogos de videogame?

Ai é diferente! Um DVD original é 5 reais, por aí, mais caro que um falsificado. Ao contrário, um DVD de jogo é, facilmente, 20 vezes mais caro que um falsificado! A diferença de preços é absurda. No caso dos filmes, dá pra entender e pagar um pouco a mais, já os jogos tem um valor que é simplesmente proibitivo. Esses preços são excludentes, permitem acesso só a uma parcela muito limitada da população, e não se justificam!

Acesso à cultura é um direito do cidadão, indispensável à democracia. E hoje é claro que os jogos estão junto à literatura ou ao cinema como bens culturais. Não se pode permitir que o mercado ou o Estado deixem uma parcela tão grande da população fora de um veículo que também atua na produção simbólica da sociedade. Nesse caso, comprar na feira não é imoral ou ilegal, é um legítimo ato de desobediência civil!

Ao menos tento me convecer disso!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Sofrer com a alma

Manoel Bandeira disse que os corpos se entendem, mas as almas não. Com o perdão do poeta, eu discordo. Não consigo ver essa separação, somos um inteiro, corpo e alma, e só agimos de modo completo com um e outro.
Apesar disso, sabe-se lá porquê, com o tempo nos acostumamos a viver em parte. Amamos aos pedaços, muitas vezes como Bandeira imaginou (talvez de maneira menos poética, porém), só com os corpos. Ou então, nos contentamos com um amor platônico, que não deixa de ser amor pela metade. Mas isso não é o mais dramático. A grande tragédia é o sofrer incompleto e, principalmente, a tristeza de sofrer só com a alma. Um mal - tipicamente masculino, mas não exclusivo - que revela toda desumanidade de que se é capaz. Afinal, imagino que não há nada mais humano do que chorar, armar um barraco e ficar um tanto desequilibrado quando se machuca. Isso é normal. Assustador e ser frio, incapaz de botar nada pra fora, mesmo que o coração esteja prestes a arrebentar o peito. Nós sim, somos os anormais.
O sintoma dessa doença? Os olhos secos e um inexplicável desejo de dormir.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Angra dos Reis

É muito curioso que poucas línguas tenham alguma palavra que seja um bom sinônimo de saudade. Me admira que essa seja uma das palavras mais difíceis de se traduzir, sendo que representa um sentimento tão fácil de se sentir. Só não é tão fácil de descrever; saudade parece que tem a ver com distância, mas a falta que eu sinto das pessoas que estão longe no passado, que é distância maior do que jamais se percorre, parece pouca perto da saudade que eu sinto de quem tá a um dia de viagem daqui. Também parece que tem a ver com perda, mas a dor de estar longe do que se tem hoje ofusca qualquer lembrança daquilo que se foi há tempos.

Muita coisa dá saudades. Às vezes paro pra pensar e lembro de pessoas que amei com tanta força que não sei dizer que não amo mais. E ai sinto saudades delas. É uma vontade sem tamanho de ligar só pra dizer um oi e poder ouvir uma voz querida. Ou então lembro de dias em que o tempo parecia feito pra ser gasto e sinto uma nostalgia boa. Ou talvez - e com que frequência acontece! - penso em alguém realmente especial, tão incrível que podia fazer os dias ficarem longos e os meses tão curtos!

No meio dessas memórias que ora passam flutuando, ora colam na mente, me vêm a lembrança de um cartão-postal, jogado em meio a um monte de outros, que eu vi muito longe daqui. Um cartão que, pensando melhor, até explicava bem o que é sentir saudade. Ele trazia escrito, numa letra fina e corrida: "A distância entre nós, contada em milhas, é imensa. Mas se contada em pensamentos, é como se você estivesse do meu lado"

Frase do dia: "Saudade é solidão acompanhada" - Pablo Neruda

domingo, 31 de janeiro de 2010

Toda fraqueza será perdoada


Dançando no escuro é um filme que surpreende. Nem tanto por trazer algo novo, mas sim por mostrar uma natureza bem deteriorada do homem.

O filme faz crescer um sentimento de pena e revolta pela pouca sensibilidade que a protagonista recebe do mundo, pelas pancadas que ela recebe da dura realidade que se apaga a cada instante da sua visão. Mas o que eu achei mais marcante foi o final, que, óbvio, eu vou contar. O filme é de 2000, quem não viu até hoje já tá errado.

Enfim, o final me deixou pensativo porque eu esperava heroísmo, mas as pessoas são cruelmente frágeis perto do fim. A personagem da Björk, aceitou ser jogada na prisão e condenada à morte por uma injustiça e preferiu não se defender, abrindo mão da chance de sobreviver em troca da cirurgia que evitaria que seu filho também perdesse a visão. Estoicamente, ela aceitou morrer por algo que ela achava valer a pena. Nada mais clássico. Só que no fim ela chorou, fraquejou, quis desistir. Mesmo a nobreza da sua decisão ficou pequena diante daquele triste espetáculo.

No Direito, diz-se que a norma não exige um comportamento heróico, ninguém é obrigado a manter qualquer dignidade, humanidade ou moral quando enfrenta o fim. Mas é desolador pensar que no último instante podemos perder o restinho de orgulho que temos. Existe algo chamado de pirâmide das necessidades que explica até bem isso. Diante do risco de dano à necessidade mais básica de todas, todo o resto vira futilidade e a honra, um luxo descartável.

E o que consideramos essência moral do ser humano não passa de um verniz fino que se descasca, revelando o mais profundo instinto de sobrevivência.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Somos muitos severinos

Somos iguais em tudo na vida, todos partilhamos a ignorância e a pequenez, somos irmãos na nossa cegueira, morremos de morte igual. Não importa muito o tanto que se sabe, por que até quem sabe usar as palavras mais complicadas se perde nas contas um pouco mais difíceis e o sujeito que é muito bom com os números às vezes não sabe quem foram Machado ou Drummond. Então, que sentido tem o médico que ri de quem não sabe onde fica o nervo ciático? Ou do advogado que despreza quem não sabe dos próprios direitos? Ou o gramático que torce o nariz pra quem fala errado, e por aí vai... De onde vem a prepotência intelectual, se ninguém sabe tudo e, no fim, ninguém sabe é nada?

Severino já foi nome de papa e hoje é nome de retirante, nome de quem não tem rosto. Rosto no meio de uma multidão de Joões, Marias e Severinos, no meio da qual estão nossos próprios rostos. Qualquer um é mais um perdido no mundo sem tamanho, mas as pequenas diferenças, que aos nossos olhos ficam enormes, podem ser suficientes pra alimentar uma soberba descabida. É difícil pro forte não abusar da força, ou pro inteligente não se sentir superior. Essa sim é uma tentação forte, e a única saída é não esquecer nosso tamanho. Olhar bem pro céu e ver nosso tamanho real.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Asceta sem opção

Morrendo de fome só lembro de uma palavra: ascese. É o auto-flagelo de quem busca realidades mais altas. O asceta é aquele que procura fortalecer o espírito torturando o corpo.

Contudo, nem de longe eu estou atrás de uma súbita iluminação. Minha fome tem razões bem mais mundanas. Acabou o macarrão. De qualquer modo, me recordo das crenças que tanto desprezam o corpo. Como é possível? Me parece tão óbvia a interdependência de corpo e mente que aos meus ouvidos não faz sentido tratar como opostos. É uma coisa só.

O que sustenta o ideal ascético é a ideia de que corpo e alma são separados e antagônicos, ou seja, que a força de um se traduz na fraqueza do outro. Mas um ser humano não é feito de pedaços autônomos. Um homem é um todo que depende da harmonia das partes. Matar o corpo é como suprimir a vida, é um crime. A dignidade verdadeira é liberdade de corpo e mente, deve aparecer como força, tanto da vontade quanto das mãos.

Mas continuo com fome =P

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desculpinhas de ano-novo

Ok, vou me esforçar!


Meu 2010 começou com algumas resoluções, como o de muita gente. Também começou com alguns desafios e testes pra passar. Veio cheio de promessas de muito trabalho pela frente. E pra atrapalhar, também começou com um bocado de preguiça. Nessa virada de ano não teve nenhum post especial, nenhuma coisinha interessante por aqui, nada. O blog ficou severamente entregue às moscas. E ai eu já quebrei minha primeira promessa de ano-novo, a de cuidar mais do blog. Quem sabe um layout novo, uns posts mais frequentes... vou tentar, pelo menos.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

More than zero

Se alguém quer uma indicação de um bom filme, recomendo Waking life. Não é filme pra quem se amarra em transformers-ninja explodindo numa perseguição de motos. Com facas. Waking life, ao menos do modo como eu vi, é um filme de discursos. São diversas pessoas simplesmente falando, sobre várias coisas e sempre acrescentando algo interessante. E a tirada que eu não consigo esquecer, a que achei mais marcante no filme é a fala "O abismo entre, digamos, Platão ou Nietzsche e um humano comum é maior que o abismo entre um chimpanzé e um humano comum". O desconcertante é que parece verdade.

Por que um numero assustadoramente pequeno de pessoas foi capaz de escrever seu nome na história, enquanto para a maioria a existência parece ser "uma fútil adição de zeros" ao nosso conhecimento? Ver as coisas dessa maneira pode ser um tanto angustiante. Será que dá pra garantir que você será uma desses poucos que seguram uma tênue vela no meio da escuridão geral? Ser pouco melhor que a maioria não é difícil, apesar de 50% das pessoas estarem em algum ponto da média para baixo. Mas como ser tão grande e relevante quanto o punhado de personalidade sobre os quais aprendemos na escola?

Pequenos grandes homens.


Pode parecer que uma vida só se completa gravando suas iniciais na memória da humanidade, seja com carinho ou com sangue, contudo, o fim da humanidade não precisa ser necessariamente deixar seu rosto pra posteridade. Todos, sem exceção tem algo incrível pra mostrar. A maioria apenas não sabe. Ou, mais provavelmente, nós é que não sabemos julgar. Afinal, quem pode julgar a futilidade alheia? Não será presunção demais condenar a massa ignara, desconsiderando que você pode estar no meio da patuleia? Não, a medida de um tempo bem vivido precisa ser algo além do veredito do tempo, ou da prepotente visão pessoal. Acho que me resta lembrar que a existência só se justifica como fenômeno estético, nas palavras um senhor já citado. Dessa forma, fica mais fácil pra mim responder aquela pergunta: Como pessoas comuns se tornam extraordinárias?

Fazendo da vida uma obra de arte!

sábado, 28 de novembro de 2009

Nota #20 - ou Longe daqui

É mesmo duro acordar um dia e descobrir que você cresceu um medroso. O medo de machucar os outros virou medo de se comprometer, pura covardia. Esse jeito de olhar as coisas de fora, às vezes fingindo que não é parte do cenário nasce da certeza de que é melhor perder e aguentar sozinho do que arriscar e machucar o outro. Juro. Mas pensando bem, o certo a fazer é bem diferente. Afinal, experiência requer engajamento.

Até hoje resolvi os problemas indo pra longe deles, abrindo caminho pra deixar o tempo passar. Assim é fácil. A 30.000 pés o tempo é sempre bom. Mas desde quando eu prefiro o caminho fácil? O "jeito mais simples" é um privilégio que nunca tive, felizmente. Acho que vou tentar fazer certo daqui pra frente. Deve ser agora que eu pediria desculpas às pessoas que sofreram de algum modo com a frieza que eu usava como panacéia. Talvez faça isso sim, mas não agora. E com certeza não aqui.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cada um de 500 dias



Se precisasse, eu definiria a vida como complexidade e contingência. Contingente é aquilo que não é impossível, mas também não é necessário. Já complexo é aquilo que tem mais possibilidades do que podemos controlar. É o tipo de coisa que nos incomoda, nós que procuramos tanto uma certeza, uma certa solidez. Nem sempre o mundo foi assim, mas hoje é.

Negar a incerteza que nos cerca é a defesa mais comum. Nos enganamos, agarrados firmemente em alguma crença ou esperança que só tem fundamento em nossas próprias cabeças. E quando esse fiapo de constância se desfaz, não sobra nada além de desespero. Isso é o que acontece com Tom, o personagem de Joseph Gordon-Levitt no excelente "500 dias com ela". O rapaz é um romântico desses incuráveis, cresceu ouvindo sobre o amor nas músicas melosas das rádios e nas comédias românticas da TV e por isso acredita no amor verdadeiro, em encontrar a garota certa e ser feliz pra sempre. E quando ele encontra Summer (Zooey Deschanel, chuchu), imagina ter se deparado com a tão falada mulher de sua vida. O problema é que Summer não é bem o tipo de garota que se apega. A apresentação feita pelo narrador representa perfeitamente como ela é, "uma garota que só ama duas coisas: seu cabelo e o modo como pode cortá-lo sem sentir nada". Ela não acreditava nessa história de amor e não era muito ligada a relacionamentos. Ou ao menos ela se via assim.

1 ano, 4 meses e 15 dias é o tempo necessário para que Tom conheça, goste, se apaixone, ame, se magoe, chore, odeie e supere Summer. E depois desses 16 meses e meio, acaba não aprendendo nada na verdade. Desde o começo ele é infantil, sua irmã mais nova é que lhe dá os conselhos para lidar com a amada, mais que isso, ele rapidamente assume o papel que em um filme do gênero normalmente seria da mulher. Ele chora e sofre pela frieza de Summer e aparece sempre como o mais frágil dos dois. É algo incomum em um filme, mas irritantemente normal na realidade. Summer, por outro lado, tem a forte consciência de que os relacionamentos simplesmente um dia acabam, mesmo sem culpa de ninguém. A vida simplesmente é assim. Do ponto de vista dela, portanto, é melhor não sentir nada por ninguém, ao menos nada muito profundo, e assim evitar uma dor certa.

Isso tudo pode ser difícil de ver em um filme, mas é quase regra na vida real. Por algum motivo, nós assumimos a postura de uma criança mimada diante da volatilidade que encaramos por aí. Nos seguramos firmemente a um sentimento ideal e fazemos de tudo pra não deixá-lo ir, mesmo que isso signifique matar a liberdade do outro. E então ficamos perdidos encarando nossas mãos vazias quando a ideia se desfaz no ar. E daí fazemos o que? Esperneamos e choramos, como isso pudesse de alguma forma resolver a situação. No lado oposto, a Summer não passa da versão exagerada de metade da população mundial, que evita o apego pra evitar a dor, que prefere não sentir nada a ter que aguentar o sofrimento que vem no mesmo pacote que a felicidade.

A grande dificuldade em caminhar no terreno escorregadio que temos sob os pés é que insistimos em olhar pra frente, temendo ou esperando pelo futuro, ou em olhar pra trás, nos arrependendo ou suspirando pelo passado. Tom era incapaz de aproveitar o tempo que passava com Summer porque estava sempre se preocupando se eles continuariam juntos depois. Ele não vivia o agora, ocupado que estava com o amanhã. Enquanto isso, Summer tira o máximo dos momentos com o rapaz, apesar de sentir falta de uma certeza que acaba encontrando só no fim do filme. Não sei bem que certeza é essa, afinal se eu soubesse teria uma resposta que todos os homens procuram. Mas se fosse chutar, diria que Summer queria sentir que aqueles momentos, ou melhor, que o sentimento por trás deles, se repetiriam sem perder força. E ela não é fria ou má por isso. Ela é como todas as outras garotas são e sempre foram, talvez de maneira caricaturada, apenas.

É por isso que não culpo a Summer pelo sofrimento de Tom. Ele se machucou tanto por se recusar a entender que a vida nunca nos prometeu nada, que estamos todos sujeitos a amargar algumas perdas dolorosas. Mas isso não é motivo para dar razão à ela e evitar envolvimentos. Pelo contrário, a consciência da fugacidade possível e provável das relações só aumenta a necessidade de experimentar com intensidade, de aproveitar o que temos da melhor maneira. Com o foco no agora, podemos viver bem cada instante do que talvez - e só talvez - dure indefinidamente.

E mesmo em 500 dias ele não entendeu isso.

sábado, 24 de outubro de 2009

Vencer!


Olhar o tempo passando é um luxo. Sim, o tempo, esse que me assombra. Essa que é minha obsessão. Eu até mato o tempo, mas é o tempo que me enterra. E o meu tempo passa no ritmo preguiçoso de um carro de boi, que irrita todo mundo que corre. Eu ando no compasso da mais intencional displicência, pra poder aproveitar bem esse tanto que dá pra olhar do mundo. Mesmo caminhando às vezes de mãos pensas, lembrando do que eu perdi, esse sorriso bobo não me larga o rosto. E vez ou outra ele se abre mais por causa da lembranças de coisas simples e raras pra mim.

Só que mesmo essa alegria desmedida não significa que eu acho que tenho tudo. Nem que espero um mundo mais fácil pra amanhã. Nunca fui de alimentar muita esperança. Esperança é veneno. Te faz se acostumar com o que você tem e faz esquecer de se esforçar. Pior, faz acreditar no que era imaginação. E sabendo disso, nem esquento com as coisas daqui pro futuro. Se vou ganhar ou perder, essas coisas bobas. Deixo de lado a ideia de vencer num final feliz, pra ganhar um pouco a cada manhã. E o tempo continua lá, me azucrinando e lembrando de quão pouco tempo eu tenho. "Corre, vai, não enrola", ele me diz. Mas eu não ligo. Já aprendi a não esquentar com o tempo que já foi e com o que ainda não chegou. Já não fico mais louco pra ser um vencedor. Prefiro levar a vida assim, devagar. Só pra não faltar amor.