sábado, 14 de novembro de 2009

Cada um de 500 dias



Se precisasse, eu definiria a vida como complexidade e contingência. Contingente é aquilo que não é impossível, mas também não é necessário. Já complexo é aquilo que tem mais possibilidades do que podemos controlar. É o tipo de coisa que nos incomoda, nós que procuramos tanto uma certeza, uma certa solidez. Nem sempre o mundo foi assim, mas hoje é.

Negar a incerteza que nos cerca é a defesa mais comum. Nos enganamos, agarrados firmemente em alguma crença ou esperança que só tem fundamento em nossas próprias cabeças. E quando esse fiapo de constância se desfaz, não sobra nada além de desespero. Isso é o que acontece com Tom, o personagem de Joseph Gordon-Levitt no excelente "500 dias com ela". O rapaz é um romântico desses incuráveis, cresceu ouvindo sobre o amor nas músicas melosas das rádios e nas comédias românticas da TV e por isso acredita no amor verdadeiro, em encontrar a garota certa e ser feliz pra sempre. E quando ele encontra Summer (Zooey Deschanel, chuchu), imagina ter se deparado com a tão falada mulher de sua vida. O problema é que Summer não é bem o tipo de garota que se apega. A apresentação feita pelo narrador representa perfeitamente como ela é, "uma garota que só ama duas coisas: seu cabelo e o modo como pode cortá-lo sem sentir nada". Ela não acreditava nessa história de amor e não era muito ligada a relacionamentos. Ou ao menos ela se via assim.

1 ano, 4 meses e 15 dias é o tempo necessário para que Tom conheça, goste, se apaixone, ame, se magoe, chore, odeie e supere Summer. E depois desses 16 meses e meio, acaba não aprendendo nada na verdade. Desde o começo ele é infantil, sua irmã mais nova é que lhe dá os conselhos para lidar com a amada, mais que isso, ele rapidamente assume o papel que em um filme do gênero normalmente seria da mulher. Ele chora e sofre pela frieza de Summer e aparece sempre como o mais frágil dos dois. É algo incomum em um filme, mas irritantemente normal na realidade. Summer, por outro lado, tem a forte consciência de que os relacionamentos simplesmente um dia acabam, mesmo sem culpa de ninguém. A vida simplesmente é assim. Do ponto de vista dela, portanto, é melhor não sentir nada por ninguém, ao menos nada muito profundo, e assim evitar uma dor certa.

Isso tudo pode ser difícil de ver em um filme, mas é quase regra na vida real. Por algum motivo, nós assumimos a postura de uma criança mimada diante da volatilidade que encaramos por aí. Nos seguramos firmemente a um sentimento ideal e fazemos de tudo pra não deixá-lo ir, mesmo que isso signifique matar a liberdade do outro. E então ficamos perdidos encarando nossas mãos vazias quando a ideia se desfaz no ar. E daí fazemos o que? Esperneamos e choramos, como isso pudesse de alguma forma resolver a situação. No lado oposto, a Summer não passa da versão exagerada de metade da população mundial, que evita o apego pra evitar a dor, que prefere não sentir nada a ter que aguentar o sofrimento que vem no mesmo pacote que a felicidade.

A grande dificuldade em caminhar no terreno escorregadio que temos sob os pés é que insistimos em olhar pra frente, temendo ou esperando pelo futuro, ou em olhar pra trás, nos arrependendo ou suspirando pelo passado. Tom era incapaz de aproveitar o tempo que passava com Summer porque estava sempre se preocupando se eles continuariam juntos depois. Ele não vivia o agora, ocupado que estava com o amanhã. Enquanto isso, Summer tira o máximo dos momentos com o rapaz, apesar de sentir falta de uma certeza que acaba encontrando só no fim do filme. Não sei bem que certeza é essa, afinal se eu soubesse teria uma resposta que todos os homens procuram. Mas se fosse chutar, diria que Summer queria sentir que aqueles momentos, ou melhor, que o sentimento por trás deles, se repetiriam sem perder força. E ela não é fria ou má por isso. Ela é como todas as outras garotas são e sempre foram, talvez de maneira caricaturada, apenas.

É por isso que não culpo a Summer pelo sofrimento de Tom. Ele se machucou tanto por se recusar a entender que a vida nunca nos prometeu nada, que estamos todos sujeitos a amargar algumas perdas dolorosas. Mas isso não é motivo para dar razão à ela e evitar envolvimentos. Pelo contrário, a consciência da fugacidade possível e provável das relações só aumenta a necessidade de experimentar com intensidade, de aproveitar o que temos da melhor maneira. Com o foco no agora, podemos viver bem cada instante do que talvez - e só talvez - dure indefinidamente.

E mesmo em 500 dias ele não entendeu isso.

sábado, 24 de outubro de 2009

Vencer!


Olhar o tempo passando é um luxo. Sim, o tempo, esse que me assombra. Essa que é minha obsessão. Eu até mato o tempo, mas é o tempo que me enterra. E o meu tempo passa no ritmo preguiçoso de um carro de boi, que irrita todo mundo que corre. Eu ando no compasso da mais intencional displicência, pra poder aproveitar bem esse tanto que dá pra olhar do mundo. Mesmo caminhando às vezes de mãos pensas, lembrando do que eu perdi, esse sorriso bobo não me larga o rosto. E vez ou outra ele se abre mais por causa da lembranças de coisas simples e raras pra mim.

Só que mesmo essa alegria desmedida não significa que eu acho que tenho tudo. Nem que espero um mundo mais fácil pra amanhã. Nunca fui de alimentar muita esperança. Esperança é veneno. Te faz se acostumar com o que você tem e faz esquecer de se esforçar. Pior, faz acreditar no que era imaginação. E sabendo disso, nem esquento com as coisas daqui pro futuro. Se vou ganhar ou perder, essas coisas bobas. Deixo de lado a ideia de vencer num final feliz, pra ganhar um pouco a cada manhã. E o tempo continua lá, me azucrinando e lembrando de quão pouco tempo eu tenho. "Corre, vai, não enrola", ele me diz. Mas eu não ligo. Já aprendi a não esquentar com o tempo que já foi e com o que ainda não chegou. Já não fico mais louco pra ser um vencedor. Prefiro levar a vida assim, devagar. Só pra não faltar amor.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Nota #20 - ou só mais uma nota inútil

Blog são coisas perigosas, justamente porque um mínimo de pessoalidade já o torna parte de você. Quando se escreve uma só frase em primeira pessoa, é u pedaço da própria alma que se coloca ali à disposição de todo mundo, pra ser dissecado, analisado e julgado. Sério, é preciso ter coragem, quem tem blogs pessoais é bem corajoso. Uma coragem que eu de certa maneira invejo.
Invejo porque este blog que vocês estão lendo encontra-se obviamente em crise. Não exatamente uma crise de criatividade, ideias pra escrever eu até tenho. A pertinência delas é que é questionável. Só pra constar, tenho tentado pensar em que formato quero que este blog tenha. Portanto, peço paciência e que vocês não me abandonem. Ah, olha só, nem sou blogueiro profisional e já estou de mimimi como eles quando não têm o que postar.
Mas não é bem esse o caso. Eu só estava pensando, aqui ouvindo "O velho e o moço", sobre as coisas que eu poderia dizer aqui mas não devo. Não por vergonha, ou mesmo pra evitar elocubrações desnecessárias. Apenas porque são coisas pra serem ditas e não escritas. Talvez uma medida imprescindível pra se escrever é saber o que não se escreve. Aliás, cada mensagem tem seu canal certo.
Isso é interessante, porque tem coisa pra se escrever pra internet inteira ler, outras que se sussura com cuidado.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nota #19

É muito fácil ser duro. Não precisa muito esforço pra parecer uma pessoa gelada, sem sentimento, dessas com quem não se puxa papo na fila do banco. Talvez ser assim distante seja da natureza de algumas pessoas. Por outro lado, como me disseram, toda essa frieza e suposta firmeza podem ser apenas um jeito de esconder carência e fragilidade. Pode ser, até que faz sentido.

Sempre pensei na metáfora de as pessoas construírem muralhas, fortalezas e um milhão de defesas pra não se machucarem. Só que a parte mais frágil não dá pra proteger. Mesmo com todo o cuidado, um beijo ou um sorriso despretensioso derrubam toda a aparência de força. Ou não, ainda acredito naquelas pessoas que não tem coração, simplesmente. Devem existir.

Mas assim, pra maioria de nós tem alguma coisa que te pega de surpresa e te põe a gaguejar ou te deixa sem reação, meio que perdido. Pode ser uma ligação sem motivo, um carinho pra quem não tá acostumado ou um desenho que alguém te faz. Sabe, essas coisas pequenas, que te fazem sorrir tão forte por dentro que você nem lembra o que dizer.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A semelhança entre conceitos e linguiças



Conceitos são como o coração desse pandinha amargurado

Uma das primeiras coisas que deviamos aprender num curso de humanas é o que é um conceito. Sim, o conceito de conceito. Já vi muita discussão acontecer porque as pessoas não sabem ao certo o que é um conceito. Aliás, quase todo debate infrutífero surge daí.

O conceito por si é como uma caixinha vazia... ou uma linguiça. São vazios e precisam ser preenchidos com alguma coisa. É só uma palavra que a gente preenche com um significado. Dessa forma, o mesmo conceito pode ter diversas definições pra cada pessoa e, normalmente, cada disciplina dá significações diferentes pra seus conceitos.

Então, só queria mesmo lembrar que pra um hipotético debate honesto - no qual já não acreditando tanto - o primeiro passo é afinar conceitos. Em geral as pessoas discutem porque estão usando conceitos diferentes pra mesma coisa, ou dando significados diferentes pro mesmo conceito. Ou seja, quase todo bate-boca acontece porque as pessoas estão usando linguagens diferentes. Cuidado com isso!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Filosofia prática comendo o miojo

Não me agrada a ideia corrente de que filosofia é algo abstrato, sem função, que não se aplica a nada. Criar ideais, desenvolver noções imateriais, abstrair enfim, tem seu valor. Mas acho que a filosofia não para ai. E digo isso com a propriedade de quem entende nada de filosofia.

No post anterior disseram "Po, crescer juntos é uma ideia bacana e tal, mas como se faz isso? Na teoria é fácil" ou coisa do tipo. Pois bem, de fato, a mera afirmação não tem grande valor. Então vamos pensar em como o que eu disse vira prática.

Certo, pra começar é bom definir o que seria esse crescimento. Particularmente gosto de pensar que se refere a um aumento na sua potência, tida como o leque de possibilidades que a pessoa tem de afetar e ser afetada pelo mundo. Então te faz crescer aquilo que aumenta a intensidade da sua experiência com o mundo e o número de maneiras com que você pode se relacionar com ele.

Com esse conceito em mente, entendo que duas pessoas crescem juntas - e aplico isso a qualquer relacionamento - quando de alguma maneira ajudam uma a outra a experimentar a vida de maneira mais intensa. Um exemplo: conheci um jovem que namorava uma bela garota dançarina de Zouk. E como dançava bem a menina! Só que o moleque não sabia mexer as cadeiras e morria de ciúmes da cocota com outros caras. O que o bendito do rapaz resolveu fazer? Proibiu a menina de dançar! É, mas foi-se o tempo em que dava pra proibir uma mulher de alguma coisa - bons tempos de Brasil Império - o resultado é que os dois se separaram.

Agora percebam; a atitude certa para o garoto seria ele aprender a dança. Isso, além de resolver o problema de ver sua namorada o tempo todo com outros sujeitos, ainda traria um aumento de potência pro próprio rapaz, que teria contato com uma forma nova de experimentar o mundo. Mas a atitude dele foi contraproducente. Além de ruim pra si mesmo, ao se privar do novo, ainda tolhia da garota as capacidades dela.

Prender alguém é algo que não dá certo. Nietzsche, em sua genealogia da moral, dizia que não se pode esperar que a força se exprima como fraqueza. O poder só se expressa como poder, tentar que alguém exerça sua potência é justamente ir contra isso.

Um grande amigo certa vez me disse: "Preciso de uma garota que me estimule". E eu concordo totalmente. Precisamos de pessoas que nos façam querer ler, dançar, correr, aprender, brincar, viver! Uma relação ideal então é aquela em que ambos mudam um ao outro, mas sempre pra melhor e nunca de uma vez. Porque como ensinou Spinoza, mudar é morrer.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Filosofia barata em 2 miojos

A existência só se justifica como um fenômeno estético. Assim Nietzsche fundamentou o maior ataque já realizado contra a moralidade moderna. Até agora estou tentando entender bem o que isso significa, e pode apostar que ainda vou escrever um pouco mais sobre isso depois que compreender melhor, mas agora acho interessante notar que, ao contrário do que dizem, não há niilismo em Nietzsche. Se ele retira a medida da ação do que é bom, ele a desloca para o que é belo. O que mais me atrai em sua filosofia é que o homem, desse ponto de vista é transformação, uma etapa no caminho pra algo melhor. Somo um passo entre o animal e o além-homem, ou nas palavras do filósofo, "Somos uma corda sobre um abismo".

O devir está na natureza humana, somos constante mudança, e impedir isso é destruir toda a potência que há em alguém. Potência no sentido que foi forjado por Spinoza. A capacidade de afetar ativamente o exterior. Por essas e outras é que eu concordo com Woody Allen no filme Annie Hall, em que ele compara relacionamentos a tubarões. Ambos precisam estar em constante movimento para sobreviverem. Tentar parar isso e domar o outro é tolher sua capacidade de crescer e creio sinceramente que a ideia de um relacionamento é que as pessoas cresçam juntas. Se uma delas não dá valor ao outro, ou o vê como propriedade sua e não como um igual, o que sobra nas suas mão é um tubarão morto.

E é assim que em um post escrito em 6 minutos eu junto Nietzsche, Spinoza e Woody Allen.
Boa, campeão!