sábado, 28 de novembro de 2009

Nota #20 - ou Longe daqui

É mesmo duro acordar um dia e descobrir que você cresceu um medroso. O medo de machucar os outros virou medo de se comprometer, pura covardia. Esse jeito de olhar as coisas de fora, às vezes fingindo que não é parte do cenário nasce da certeza de que é melhor perder e aguentar sozinho do que arriscar e machucar o outro. Juro. Mas pensando bem, o certo a fazer é bem diferente. Afinal, experiência requer engajamento.

Até hoje resolvi os problemas indo pra longe deles, abrindo caminho pra deixar o tempo passar. Assim é fácil. A 30.000 pés o tempo é sempre bom. Mas desde quando eu prefiro o caminho fácil? O "jeito mais simples" é um privilégio que nunca tive, felizmente. Acho que vou tentar fazer certo daqui pra frente. Deve ser agora que eu pediria desculpas às pessoas que sofreram de algum modo com a frieza que eu usava como panacéia. Talvez faça isso sim, mas não agora. E com certeza não aqui.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cada um de 500 dias



Se precisasse, eu definiria a vida como complexidade e contingência. Contingente é aquilo que não é impossível, mas também não é necessário. Já complexo é aquilo que tem mais possibilidades do que podemos controlar. É o tipo de coisa que nos incomoda, nós que procuramos tanto uma certeza, uma certa solidez. Nem sempre o mundo foi assim, mas hoje é.

Negar a incerteza que nos cerca é a defesa mais comum. Nos enganamos, agarrados firmemente em alguma crença ou esperança que só tem fundamento em nossas próprias cabeças. E quando esse fiapo de constância se desfaz, não sobra nada além de desespero. Isso é o que acontece com Tom, o personagem de Joseph Gordon-Levitt no excelente "500 dias com ela". O rapaz é um romântico desses incuráveis, cresceu ouvindo sobre o amor nas músicas melosas das rádios e nas comédias românticas da TV e por isso acredita no amor verdadeiro, em encontrar a garota certa e ser feliz pra sempre. E quando ele encontra Summer (Zooey Deschanel, chuchu), imagina ter se deparado com a tão falada mulher de sua vida. O problema é que Summer não é bem o tipo de garota que se apega. A apresentação feita pelo narrador representa perfeitamente como ela é, "uma garota que só ama duas coisas: seu cabelo e o modo como pode cortá-lo sem sentir nada". Ela não acreditava nessa história de amor e não era muito ligada a relacionamentos. Ou ao menos ela se via assim.

1 ano, 4 meses e 15 dias é o tempo necessário para que Tom conheça, goste, se apaixone, ame, se magoe, chore, odeie e supere Summer. E depois desses 16 meses e meio, acaba não aprendendo nada na verdade. Desde o começo ele é infantil, sua irmã mais nova é que lhe dá os conselhos para lidar com a amada, mais que isso, ele rapidamente assume o papel que em um filme do gênero normalmente seria da mulher. Ele chora e sofre pela frieza de Summer e aparece sempre como o mais frágil dos dois. É algo incomum em um filme, mas irritantemente normal na realidade. Summer, por outro lado, tem a forte consciência de que os relacionamentos simplesmente um dia acabam, mesmo sem culpa de ninguém. A vida simplesmente é assim. Do ponto de vista dela, portanto, é melhor não sentir nada por ninguém, ao menos nada muito profundo, e assim evitar uma dor certa.

Isso tudo pode ser difícil de ver em um filme, mas é quase regra na vida real. Por algum motivo, nós assumimos a postura de uma criança mimada diante da volatilidade que encaramos por aí. Nos seguramos firmemente a um sentimento ideal e fazemos de tudo pra não deixá-lo ir, mesmo que isso signifique matar a liberdade do outro. E então ficamos perdidos encarando nossas mãos vazias quando a ideia se desfaz no ar. E daí fazemos o que? Esperneamos e choramos, como isso pudesse de alguma forma resolver a situação. No lado oposto, a Summer não passa da versão exagerada de metade da população mundial, que evita o apego pra evitar a dor, que prefere não sentir nada a ter que aguentar o sofrimento que vem no mesmo pacote que a felicidade.

A grande dificuldade em caminhar no terreno escorregadio que temos sob os pés é que insistimos em olhar pra frente, temendo ou esperando pelo futuro, ou em olhar pra trás, nos arrependendo ou suspirando pelo passado. Tom era incapaz de aproveitar o tempo que passava com Summer porque estava sempre se preocupando se eles continuariam juntos depois. Ele não vivia o agora, ocupado que estava com o amanhã. Enquanto isso, Summer tira o máximo dos momentos com o rapaz, apesar de sentir falta de uma certeza que acaba encontrando só no fim do filme. Não sei bem que certeza é essa, afinal se eu soubesse teria uma resposta que todos os homens procuram. Mas se fosse chutar, diria que Summer queria sentir que aqueles momentos, ou melhor, que o sentimento por trás deles, se repetiriam sem perder força. E ela não é fria ou má por isso. Ela é como todas as outras garotas são e sempre foram, talvez de maneira caricaturada, apenas.

É por isso que não culpo a Summer pelo sofrimento de Tom. Ele se machucou tanto por se recusar a entender que a vida nunca nos prometeu nada, que estamos todos sujeitos a amargar algumas perdas dolorosas. Mas isso não é motivo para dar razão à ela e evitar envolvimentos. Pelo contrário, a consciência da fugacidade possível e provável das relações só aumenta a necessidade de experimentar com intensidade, de aproveitar o que temos da melhor maneira. Com o foco no agora, podemos viver bem cada instante do que talvez - e só talvez - dure indefinidamente.

E mesmo em 500 dias ele não entendeu isso.